Extraída do natto, um alimento tradicional japonês à base de soja fermentada, a Nattokinase tem se consolidado como um agente terapêutico promissor da atualidade. Apesar do nome, não é uma quinase (modifica proteínas), mas sim uma serino-protease (degrada proteínas) produzida pela bactéria Bacillus subtilis natto. E o que a torna tão fascinante para a prática clínica e para a inovação biotecnológica é a sua ação terapêutica multi alvo, atuando na saúde cardiovascular e emergindo como uma candidata na neuroproteção.
Os Mecanismo de Ação: Fibrinólise (dissolução de coágulos) e Regulação Vascular
A Nattokinase atua de forma independente e sistêmica, sendo eficaz na degradação de coágulos já formados, através de três mecanismo de ação: Ação Fibrinolítica Direta: quebrando o coágulo em produtos solúveis; Ativação de Vias Endógenas: potencializando a cascata fibrinolítica natural do organismo e Inibição do Sistema Renina-Angiotensina: induzindo vasodilatação e controle pressórico.
Evidências Clínicas em Humanos: Resultados de Alto Impacto
Para a medicina, a translação da bancada para o leito é o que valida uma molécula. A Nattokinase possui um histórico de alguns ensaios clínicos demonstrando sua eficácia e segurança:
-Redução da Pressão Arterial (Estudo Duplo-Cego e Controlado): Um ensaio clínico de 8 semanas, com 86 pacientes (adultos coreanos) pré-hipertensos e hipertensos (estágio 1) demonstrou que a suplementação de Nattokinase (2.000 FU/cápsula) resultou em uma queda líquida de -5,55 mmHg na pressão sistólica e -2,84 mmHg na pressão diastólica em comparação ao placebo. Corroborando o mecanismo fisiológico, observou-se também uma redução significativa na atividade da renina plasmática nesses pacientes.
-Melhora no Perfil Trombótico e Reológico: Estudos demonstraram que 2 meses de tratamento com Nattokinase reduziram significativamente os níveis plasmáticos de fibrinogênio, Fator VII e Fator VIII, confirmando seu benefício cardiovascular global. Além disso, a administração de 2.000U/dia por 28 dias reduziu a agregação de glóbulos vermelhos e a viscosidade do sangue total.
-Doença Arterial Coronariana: Um estudo com 178 pacientes com doença arterial coronariana estável revelou que a combinação de Nattokinase (2.000 U/dia) com levedura de arroz vermelho melhorou o perfil lipídico e reduziu a pressão arterial e eventos trombóticos durante 84 dias de acompanhamento.
NK e Doenças Neurodegenerativas: De Agente Vascular a Guardiã Cerebral
O que mais instiga a comunidade científica atualmente é o potencial neurológico da Nattokinase. Doenças neurodegenerativas como Alzheimer e Parkinson estão ligadas à disfunção da Barreira Hematoencefálica e à neuroinflamação subsequente. Uma revisão de 2025 posiciona a Nattokinase como uma molécula-chave para interromper o ciclo de neurodegeneração, atuando diretamente na falha da Barreira Hematoencefálica.
Limitações Críticas do uso da Nattokinase e Desafios para os Ensaios Clínicos
Embora a Nattokinase demonstre um potencial cardiovascular e neuroprotetor, a sua aplicação clínica em larga escala ainda esbarra em obstáculos metodológicos e de segurança que devem ser considerados. Estes incluem: 1-resultados conflitantes com estudos que encontraram melhorias mínimas ou ausentes; 2-riscos ocultos na dosagem e administração de longo prazo; 3-tamanho reduzido de amostras nos estudos e populações restritas (população asiática é historicamente a principal estudada) e 4-efeitos adversos e interações medicamentosas principalmente em pacientes com condições médicas pré-existentes. Além disso, há desafios biotecnológico e farmacocinético, como por exemplo, a baixa biodisponibilidade oral e falta de padronização e impurezas alergênicas.
O Cenário de Patentes: A Corrida Tecnológica Global
Quando analisamos a propriedade intelectual, a Nattokinase não é apenas uma promessa; ela já domina o panorama de inovações fibrinolíticas. Com um total de 763 patentes publicadas mundialmente até o início de 2025, ela superou amplamente outras enzimas bem estabelecidas, como a estreptoquinase (643 patentes), a estafiloquinase (173) e a serrapeptase (58). 43% destas patentes foram publicadas apenas nos últimos seis anos, o que atesta que estamos vivendo o “boom” científico e comercial desta molécula, com forte concentração em aplicações farmacêuticas e nutracêuticas.
A China lidera com 75% de todas as aplicações de patentes (575 documentos), focando massivamente no processamento de alimentos funcionais e fabricação biotecnológica. Juntos, Japão, Coreia do Sul e EUA respondem por 15% das inovações. Enquanto empresas japonesas como a Kobayashi Pharmaceutical equilibram inovações entre alimentos e usos terapêuticos, o mercado europeu, representado fortemente pela italiana GNOSIS SPA (terceira maior aplicante global), tem um foco estritamente farmacêutico e clínico, explorando novos fármacos e terapias direcionadas.
O Gargalo Biotecnológico e a Nova Fronteira Farmacêutica
Sob a ótica da indústria e biotecnologia, os estudos expõem um desafio claro: a baixa biodisponibilidade oral da enzima devido à sua degradação no trato gastrointestinal. Deste modo, para a área médica, a próxima fronteira patenteável da Nattokinase e o maior foco de inovação reside em sistemas de entrega direcionada (targeted delivery). O objetivo das inovações atuais é criar carreadores super específicos que garantam a liberação diretamente no sítio de formação do trombo, minimizando efeitos sistêmicos (como riscos de sangramento) e potencializando sua eficácia cardiovascular e neurológica.
REFERÊNCIAS:
Bhatt, TC et al. Multifaceted microbial enzyme nattokinase: a comprehensive review on therapeutics applications, production technologies and intellectual property landscape. Current Research in Biotechnology, p. 100316, 2025. doi: 10.1016/j.crbiot.2025.100316
Kim JY, Gum SN, Paik JK, Lim HH, Kim KC, Ogasawara K, Inoue K, Park S, Jang Y, Lee JH. Effects of nattokinase on blood pressure: a randomized, controlled trial. Hypertens Res. 2008 Aug;31(8):1583-8. doi: 10.1291/hypres.31.1583.
Mahakalakar N, Mohariya G, Taksande B, Kotagale N, Umekar M, Vinchurney M. “Nattokinase as a potential therapeutic agent for preventing blood-brain barrier dysfunction in neurodegenerative disorders”. Brain Res. 2025 Feb 15;1849:149352. doi: 10.1016/j.brainres.2024.149352.
