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FARMACOLOGIA

Tirzepatida e transtornos alimentares: o alerta que poucos estão fazendo

Nos últimos anos, medicamentos como a tirzepatida (princípio ativo de marcas como Mounjaro e Zepbound) revolucionaram o tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2. Os resultados de perda de peso divulgados em estudos clínicos são, sem dúvida, impressionantes. Mas uma pergunta importante costuma ficar de fora da conversa: o que esses medicamentos realmente fazem com a nossa relação psicológica com a comida? Eles tratam apenas o peso, ou também tratam a mente por trás da compulsão alimentar?

Um estudo publicado recentemente na revista científica Nature Medicine trouxe uma pista fascinante — e, ao mesmo tempo, um alerta que merece atenção de pacientes, familiares e profissionais de saúde.

O que é “food noise”?

Antes de entrar no estudo, vale entender um termo que tem ganhado força nas discussões sobre obesidade e comportamento alimentar: food noise, ou “barulho mental de comida”. Trata-se da sensação de ter a cabeça constantemente tomada por pensamentos sobre comida — o que comer, quando comer, a vontade insistente de comer algo específico — mesmo sem fome física real e mesmo quando a pessoa tenta ativamente resistir a esses pensamentos.

Para muitas pessoas com obesidade, esse “barulho” não é um simples desejo passageiro. É uma fonte constante de desgaste emocional, culpa e, muitas vezes, comportamentos alimentares desregulados, como episódios de perda de controle ao comer — situações em que a pessoa come sentindo que não consegue parar, mesmo sem estar fisicamente com fome.

Um experimento raro: olhando direto para dentro do cérebro

O que torna esse estudo particularmente interessante é a metodologia usada. Pesquisadores das universidades da Pensilvânia e de Stanford acompanharam pacientes com obesidade grave e refratária a tratamentos convencionais — pessoas que já haviam passado por cirurgia bariátrica, mas continuavam enfrentando episódios frequentes de perda de controle alimentar.

Como parte de um ensaio clínico experimental de estimulação cerebral profunda, esses pacientes tinham eletrodos implantados diretamente no núcleo accumbens, uma pequena estrutura cerebral que funciona como um hub central do sistema de recompensa — a mesma região envolvida em comportamentos como vício e busca por prazer.

Com esses eletrodos, foi possível registrar, em tempo real, a atividade elétrica do cérebro nos momentos que antecediam episódios de preocupação alimentar intensa. E os pesquisadores encontraram algo notável: existe um padrão específico de ondas cerebrais de baixa frequência (a chamada faixa delta-theta) que aumenta momentos antes de um episódio severo de preocupação alimentar acontecer. Em outras palavras, o cérebro parece “avisar” que uma crise está a caminho antes mesmo que ela se manifeste no comportamento.

O caso que chamou atenção: quando o remédio parece parar de funcionar

O estudo detalha, em especial, o caso de uma paciente de 60 anos que fazia uso de tirzepatida para controle do diabetes tipo 2 — não especificamente para tratar a preocupação alimentar. Durante um período de alguns meses após um aumento na dose do medicamento, algo notável aconteceu: os episódios de preocupação alimentar severa praticamente desapareceram. E, junto com eles, o sinal cerebral de alerta também sumiu. Tudo indicava que o medicamento estava, de fato, “resolvendo” o problema em um nível neurológico.

O problema é que essa melhora não durou. Meses depois, mesmo com a paciente já na dose máxima do medicamento, os episódios de preocupação alimentar voltaram — e, junto com eles, reapareceu o sinal cerebral de alerta na mesma faixa de frequência observada antes.

Esse padrão levanta uma hipótese importante: o efeito da tirzepatida sobre esse mecanismo cerebral específico pode não ser permanente. Alguns pacientes podem desenvolver, com o tempo, uma espécie de tolerância aos efeitos do medicamento sobre a preocupação alimentar, mesmo que o efeito sobre o peso continue presente.

Por que isso é um alerta importante

O ponto central aqui não é dizer que a tirzepatida “não funciona” ou que ela deva ser evitada. O medicamento tem eficácia bem documentada para perda de peso e controle glicêmico. O alerta é outro: perder peso com a ajuda de um medicamento não é necessariamente o mesmo que tratar a causa por trás da compulsão alimentar ou da preocupação constante com comida.

Isso é especialmente relevante para pacientes que têm, ou já tiveram, algum tipo de transtorno alimentar — diagnosticado ou não. A busca por medicamentos para emagrecimento tem crescido de forma acelerada, muitas vezes sem uma avaliação completa do histórico psicológico da pessoa em relação à comida. Um paciente que sempre teve uma relação difícil com a alimentação pode até perder peso com o uso do medicamento, mas continuar carregando, por baixo da superfície, o mesmo sofrimento mental relacionado à comida — ou vê-lo reaparecer meses depois, como no caso relatado no estudo.

Isso reforça a importância de um acompanhamento multidisciplinar para quem inicia o uso desses medicamentos, especialmente pessoas com histórico de compulsão alimentar, ansiedade relacionada à comida ou outros transtornos alimentares. Acompanhamento psicológico, nutricional e médico especializado deveriam caminhar lado a lado com a prescrição do medicamento, não como um complemento opcional, mas como parte central do tratamento.

As limitações que precisam ser ditas

É fundamental colocar esse achado em perspectiva. Trata-se de um estudo de caso, com uma amostra extremamente pequena: apenas três pacientes participaram da pesquisa, e o caso detalhado no artigo é o de uma única pessoa. Não é um estudo controlado e randomizado, e os próprios autores reconhecem que não é possível determinar, com esses dados, se as mudanças observadas foram causadas exclusivamente pela tirzepatida ou se outros fatores — como o tempo desde a cirurgia bariátrica, o processo de recuperação, ou mudanças de vida não relacionadas — também tiveram influência.

Também não dá para generalizar esse achado para todos os pacientes que usam tirzepatida ou outros medicamentos da mesma classe (como a semaglutida). É um sinal, uma pista importante para novas pesquisas, não uma conclusão definitiva sobre segurança ou eficácia do medicamento em pacientes com transtornos alimentares.

O que fica dessa descoberta

Ainda que preliminar, esse estudo abre uma porta importante para repensarmos como tratamos a obesidade e os comportamentos alimentares desregulados. Ele sugere que pode existir, no futuro, uma forma de monitorar objetivamente — por meio de sinais cerebrais — quando um tratamento está realmente “desligando” o mecanismo por trás da compulsão alimentar, e quando esse efeito começa a enfraquecer.

Mas, para além da tecnologia e da neurociência, a mensagem mais importante desse estudo talvez seja simples: tratar o peso não é o mesmo que tratar a mente. E qualquer pessoa que inicie o uso de medicamentos como a tirzepatida, especialmente se já teve uma relação difícil com a comida, merece um cuidado que vá além do número na balança.


Fonte: Choi, W., Nho, Y.-H., Qiu, L. et al. Brain activity associated with breakthrough food preoccupation in an individual on tirzepatide. Nature Medicine 31, 4038–4043 (2025). DOI: 10.1038/s41591-025-04035-5

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